27/01/2018 às 16h36min - Atualizada em 27/01/2018 às 16h36min

O homem por trás do lanche

O nome está na boca de todo londrinense, mas nem todos o conhecem. Empresário conta como nasceu o cachorro-quente mais famoso da cidade

folha de londrina
Arnaldo´s Lanches

Pão, salsicha, tomate e frango. Eis a combinação que conquistou o coração e o estômago dos londrinenses. O lanche ficou famoso, saiu das ruas e ganhou a cidade com sua estrutura e modelo de negócio de causar inveja a grandes redes. O nome todos sabem, já o molho é guardado a sete chaves. Nesta história, criador e criatura se confundem, não se sabe dizer mais quem é Arnaldo's Lanches e Arnaldo Tsuruda, o empresário que simbolizou a cidade em uma mordida. 

De fala mansa e jeito calmo, Tsuruda parece um pouco tímido de início, mas no decorrer da conversa foi se apresentando, contando sua história e seus costumes. Filho de agricultores, o trabalho começou cedo, aos 7. Aos 10, saiu de Guaravera para estudar em Londrina. "O estudo era uma cobrança dos nossos pais". Viveu próximo à Prefeitura com a irmã. Logo em seguida o pai faleceu e a mãe veio com os irmãos. 

Trabalhos manuais parecem ser o destino e o talento do empresário. Depois de passar pela função de office-boy aos 16, foi artesão de couro, o que imagina não saber mais. "A gente perde a prática. Tem que ter todo equipamento, todo material. Foi uma coisa do momento, eu precisava trabalhar e aquilo me ajudou bastante." Bolsas, cintos, carteiras, uma variedade de peças foi fabricada durante os quatro anos no trabalho até ser convidado pelo irmão para trabalhar em uma lanchonete. "Ficamos três anos, foi na época do Plano Collor. As coisas não deram certo", recorda. 

Celebridade 
Tsuruda conta a sua história com modéstia sentado no salão de atendimento da loja na avenida Maringá, enquanto os colaboradores iniciam os trabalhos sem a supervisão do chefe. Os primeiros clientes vão chegando, alguns cumprimentam, outros simplesmente passam sem notar de quem se trata o entrevistado. O fato de produzir um lanche famoso, que leva o próprio nome, lhe dá um ar de celebridade. "Às vezes eu chego em certos lugares e a pessoa me cumprimenta pelo nome, sendo que eu nunca vi a pessoa", ri. 
No entanto, o criador nem sempre está nos holofotes e esse parece nem ser seu objetivo. Como bom trabalhador, vai todos os dias à empresa e, diferentemente do que muitos possam imaginar, trabalha na produção dos lanches, colocando a mão na massa. E talvez, por estar atrás do vidro que separa o salão da área de produção, nem todos percebam que o dono da lanchonete esteja entre os responsáveis por tornar pão em um saboroso cachorro-quente. E é fácil se misturar entre os colaboradores. Somando as duas lojas, são 55 em atendimento e produção, mais 25 na entrega. 
Mas nem sempre foi assim. Quando a vida deu uma rasteira na família e a melhor opção seria ir para o Japão se estabelecer, Tsuruda insistiu na ideia de montar um carrinho de lanche na esquina entre as avenidas JK e Higienópolis. "Era uma coisa que eu acreditava muito que ia dar certo." A venda de um Fusca e a compra de uma Kombi foram fundamentais para que, em 1991, com pouco capital, iniciasse no ramo, varando madrugadas para fazer com que o negócio desse certo. "Acho que eu desperdicei uma boa parte da minha juventude para me dedicar ao meu negócio, ao meu trabalho. Eu não sabia o que era final de semana, feriado, festa de aniversário, casamento, eu não sabia o que era isso", conta. 

Primeira loja 
O primeiro a ser contratado para ajudar com produção e venda nos carrinhos foi Pedro Pagani, seu sócio hoje. Junto com o irmão Cláudio Tsuruda e a esposa Fabiane Tsuruda, Arnaldo Tsuruda apostou na sociedade para abrir a primeira loja, inaugurada 10 anos depois, em 2001, na avenida Bandeirantes. "O grande divisor de águas foi quando a gente montou a primeira loja. Porque até então não tinha uma loja de cachorro-quente", afirma. Em 2010, foi a vez do segundo estabelecimento ser ativado. 
O que fez com que o hot dog se tornasse tão famoso na cidade? Nem Tsuruda consegue afirmar. O frango como diferencial, a forma de trabalho para que não haja tanta espera, o molho... Ah, esse ele não revela. "A mãe de um cliente nosso comeu o cachorro-quente e um dia falou que ia trazer esse molhinho pra gente experimentar. Depois que experimentei, coloquei como complemento do lanche e foi uma aceitação fora do normal. Tem o segredo que ela me passou e pediu para não passar essa receita para ninguém", diz, mantendo o mistério. 
Luan Santana, Fernando e Sorocaba e Lúcio Mauro Filho já provaram a iguaria. "O londrinense tem muito disso, de ter alguns pontos que marcam, que criam o hábito de consumir. A gente conseguiu criar uma identidade. Mesmo na época da rua, trabalhando como ambulante, a gente recebia gente de todas as classes e até hoje é assim", afirma. 
Família 
No meio dessa história, três filhos e um neto. "A experiência de avô é muito boa, é diferente de ser pai, você curte sem muita responsabilidade, então pega só a parte boa", diz o empresário, que gosta do convívio familiar, de sair com os filhos, pescar... "Sempre que eu posso, tô indo pescar. Já peguei uns peixes bons lá já!", mencionando o rio Tibagi. Peixe também faz parte do prato preferido: comida japonesa. Mas também come o próprio lanche, porque, vez ou outra, se pega com vontade. "Meu filho, se deixar, come todos os dias", brinca. 
Com a filosofia de que não há dinheiro que pague o preço de estar com a família, a lanchonete fecha todos os domingos, além de disponibilizar férias coletivas no início do ano. Tsuruda também acredita que hoje o negócio caminha sem a necessidade de tê-lo por perto, permitindo que viaje três ou quatro vezes com a família durante o ano, além de tirar os sábados de folga. 
Os três filhos têm a missão de seguir o negócio: as duas mais velhas estão formadas e já auxiliam na empresa, e o mais novo, 16, acompanha a família. Tsuruda afirma que seus filhos e os dos sócios são responsáveis pelo futuro da empresa. "A gente até tem projetos de expansão, mas quem está à frente é essa segunda geração, que são nossos filhos", afirma. O pai confia, sabe os valores e o apoio que deu. "O maior patrimônio que eles têm é o estudo, é a formação. A maior herança que eu poderia deixar pra eles é isso, o incentivo ao estudo", orgulha-se.

Lais Taine

Link
Notícias Relacionadas »