20/10/2016 às 07h56min - Atualizada em 20/10/2016 às 07h56min

É Cruzeiro do Norte. Mas todos dizem Serra Morena

Nome de origem desapareceu do mapa há 58 anos e a comunidade ainda não aceitou a mudança

http://www.folhadelondrina.com.br/
 
Fotos:Celso Pacheco

Fotos:Celso Pacheco

O nome em realce no acesso ao distrito não está no mapa e o visitante pode imaginar que errou o caminho
 
Aristides José da Silva chegou em 1944 e diz que "uns bestas aí mudaram o nome", mas a comunidade inteira prefere Serra Morena
 
Estação de Serra Morena, inaugurada em 15 de dezembro de 1941 pela Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná
 

Nas décadas de 30 e 40 havia um desafio aos motoristas na estrada de Cambará a Jatahy: transpor a Serra Morena quando chovia. Tão famosa que deu o nome a estabelecimentos comerciais e de outros ramos, o mais antigo talvez em Londrina, ''batizado'' em 1939 pelo fundador, o alemão Frank Waldhauzer, que permanecera ''encalhado'' 40 dias na Serra. E a maior indústria de Uraí tem a marca Serra Morena. 

Falta saber se a construção da BR-369 desviou-se da antiga estrada e possa ter amenizado a Serra, no trecho Jataizinho e Uraí. 

Ainda na década de 30, o temível acidente geográfico passou a identificar o patrimônio no km 165 da Estrada de Ferro São Paulo-Paraná. Mas o nome Serra Morena desapareceu do mapa, substituído por Cruzeiro do Norte, distrito de Uraí. 

''Uns bestas aí mudaram o nome. Gente que não tem o que fazer. É para desnortear'', resume Aristides José da Silva, o Tide, 78 anos, que chegou ao lugar em 1944. ''Mas todos aqui continuam a falar Serra Morena, não adianta''. 

Constata-se que Tide não exagera e o nome em realce no principal acesso ao distrito confirma a perenidade. A população difunde uma lenda sobre a origem: ao demarcar o leito para a ferrovia, o topógrafo avistou duas mulheres serrando uma árvore. Admirado, exclamou: ''Serra, morena...'' O verbo no singular. Narrativas suprimiram a vírgula e o verbo passou a substantivo. 

Mas o patrimônio é um pé de serra, o que parece reforçar a origem geográfica do nome anterior, mudado para Cruzeiro do Norte em 20 de maio de 1954, conforme resolução estadual. 

O IBGE recomendava mudar nomes iguais em dois ou mais Estados, para evitar confusões, preservando-se o da localidade há mais tempo. Existe o distrito Serra Morena em Mato Grosso, notável pelo turismo. 

Segundo Tide, Cruzeiro do Norte vem da cruz, ou ''cruzeiro'' que missionários colocaram no alto do morro e políticos interessados em promoção iluminaram por um tempo. Continua lá, o acesso é complicado e só motociclistas de Londrina se aventuram, segundo Tide. 

'Hoje tem tudo', mas continua a faltar água 

Cruzeiro do Norte situa-se a oito quilômetros da BR-369, por acesso não pavimentado, e a nove de Uraí, por asfalto, obra do Governo Álvaro Dias (1987-1991). A rodovia adentra o perímetro urbano e outras vias pavimentadas atingem a praça da igreja, circundada pelo comércio. E há o cartório (tabelionato de notas). 

Nascido no distrito, geração dos anos 1950, Arlindo Bergamini alcançou o trem de passageiros, conhece o folclore e estima que sejam 800 moradores no perímetro urbano e 400 sitiantes nos arredores. Aristides José da Silva, o Tide, menciona ''260 torneiras no patrimônio'', sugerindo que se calcule a população pelo abastecimento de água, daí resultando uma conta quase igual à de Arlindo, em termos da média nacional de 3,3 moradores por domicílio, estabelecida pelo IBGE. 

''O que tinha aqui era sossego. Não havia bandido, nem malicioso. Hoje tem tudo, até maconheiro'', afirma Tide em tom cáustico. A esposa, Maria Souza da Silva, intervém e ''no tudo'' valoriza as escolas no distrito, até de segundo grau. Ambos procedentes de Minas Gerais, suas famílias chegaram na década de 40, para a agricultura. Tide e Maria se casaram em Serra Morena, onde nasceram os cinco filhos do casal, dois homens e três mulheres. 

Desde que chegaram a escassez de água parece eterna e Tide faz um inventário altamente negativo do sistema. ''Toda vida foi ruim de água. Falta um poço bom, que não seja pocinho, caixa d'água boa e que ponham relógio, que é para o povo não gastar demais. O sujeito usa e deixa correr, gente que tem consciência é pouca''. Acrescenta-se a má-conservação do sistema, com vazamentos e falhas que interrompem o fornecimento por dias seguidos. 

A estiagem prolongada diminuiu a vazão dos poços e, em setembro, a Prefeitura estava suprindo Cruzeiro do Norte com caminhão-tanque, nove a dez viagens por dia, informou Cristiano Miranda, dos Serviços Gerais. 

Reza o folclore que, nas campanhas eleitorais, candidatos responsabilizam o prefeito e prometem eliminar a deficiência, se eleitos, ''enganação'' que se repete há décadas. E o sistema não está incluído na concessão à Sanepar, restrita a Uraí. 

Há uma parcela de culpa da própria população desde que, consultada, não autorizou por maioria a concessão, achando que ''ficaria muito caro'', segundo Cristiano, que revela valores ínfimos recebidos pela Prefeitura. A taxa para os consumidores do perímetro urbano é de R$ 6,00 (seis reais) mensais por toda a água consumida (sem medidor), ôtem gente que paga, tem gente que não paga''; para os moradores em chácaras, R$ 7,00 (sete reais) e ''tem gente que não paga há mais de um ano''. 

Há dois poços artesianos e a necessidade de outros não é suprida por causa do custo elevado das perfurações em camadas rochosas, ''tem muita laje'', comentam. Entre 1967 e 1970, houve o abastecimento com água do rio das Cinzas transportada em vagões-tanque pela estrada de ferro 

''Quando o Moysés Lupion era governador, veio uma máquina, ficou um ano e meio e furou 60 metros'', rememora Tide a origem de um dos poços, há mais de 50 anos e hoje quase exaurido. 

Por 40 anos estação recebeu passageiros 

''Vão reformar?'' indaga o morador que indicou o caminho para a estação do trem, modesta e depredada, quase um ''esqueleto'' encoberto por uma vegetação emaranhada na parte de trás. Foi construída em 1939 e aberta ao tráfego geral em 15 de dezembro de 1941. 

''Dizem que volta. Mas não volta, não'', comenta Tide sobre a propalada intenção de se reintroduzir trens de passageiros. No seu tempo, ia de Serra Morena a Maringá visitar parentes, sem baldeações, ''viagem boa, restaurante a bordo'', recorda Tide. ''Hoje tenho de pegar um ônibus até Londrina e depois outro para Maringá, demora muito.'' O tráfego de passageiros na estação cessou em 1981, quarenta anos após ser iniciado. 

''Avisamos aos interessados que, a 15 de dezembro do corrente, será aberta ao tráfego público em geral a Estação de Serra Morena, situada no km 165 desta Estrada, no Estado do Paraná'', informou a Companhia Ferroviária SP-PR, anúncio na 'Folha da Manhã' (São Paulo) de 25 de novembro de 1941. 

Reproduzido no site 'Estações Ferroviárias do Brasil', o documento integra a pesquisa de Adélia Grou de Toledo, Antônio Carlos de Toledo e Paulinho Manfrinato, que estiveram em Cruzeiro do Norte quando a ''prosperidade local se devia à produção de uva, cítricos e cereais, destinada a São Paulo'', e à extração de pedra em grande escala, fornecida em bruto, média e miúda, anotaram. ''Todavia, esse bairro era pobre em água'' e o chefe da estação entre 1967 e 1970, Toledo Neto, providenciou então o transporte de água do rio das Cinzas em vagões-tanque da ferrovia para supri-lo. 

Em termos da ferrovia, permanece a denominação Estação de Serra Morena, anteriormente no km 165 do percurso de Ourinhos a Apucarana, extensão à época da Estrada de Ferrp São Paulo-Paraná; atualmente km 465 da América Latina Logística (ALL) Ourinhos-Cianorte.


Link
Notícias Relacionadas »