22/04/2015 às 00h00min - Atualizada em 22/04/2015 às 00h00min

Em cinco anos, notificação de casos de pedofilia cresce 274% no PR

Fonte: FolhadeLondrina

Diariamente, no Brasil, pelo menos 32 novos casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes são notificados ao sistema que faz o atendimento das vítimas. Conforme informações do Datasus, apenas no ano passado foram relatados 11.901 casos à rede, o que significa um aumento de 160% em relação às notificações de cinco anos atrás. No Paraná, onde foram identificados 953 casos de violência sexual contra essa parcela da população em 2014, o aumento foi ainda maior, de 274% em relação a 2009. 

O crime mais comum que chega ao sistema é o estupro, que correspondeu a 8.347 casos no ano passado. Assédio sexual, atentado violento ao pudor, exploração sexual e pornografia infantil também constam dos registros. Apesar do volume de notificações, os casos de crimes de pedofilia cometidos contra as crianças e adolescentes brasileiros podem ser muito maiores. Muitos cuidadores não identificam a violência e, além disso, quando os casos são descobertos, nem sempre são denunciados. 

A professora Delair Borges Zermiani, 46, transformou em ativismo a dor causada pelas profundas cicatrizes deixadas pelos frequentes abusos sofridos por pelo menos 12 anos. Vítima do próprio pai, ela resolveu tornar pública a história por ter certeza de que muitas crianças continuam sendo vitimadas pela pedofilia justamente porque não contam com uma rede de apoio para pedir ajuda e proteção. Em 2011, decidiu fundar em Cascavel, onde reside, a entidade EVAS (Ex-Vítimas de Abusos Sexuais), destinada à prevenção de crimes de abusos sexuais contra crianças e adolescentes. É também a organizadora do Simpósio Nacional de Proteção da Adolescência e Infância (SINPAI), que se realiza nos dias 29 e 30 de abril em Cascavel. 

Delair é a idealizadora do projeto de lei 4754/2012, que propõe a realização de campanhas alertando sobre a pedofilia durante todo o ano em veículos de comunicação de massa. O projeto foi apresentado pela então deputada federal Liliam Sá e atualmente está em discussão na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara Federal. 

TESTEMUNHO
Sobre a própria história, Delair conta que tem lembranças de ser abusada desde os 5 anos de idade. Entretanto, uma pessoa próxima, que foi obrigada a presenciar alguns momentos do abuso, relatou que ela tinha menos de 2 anos quando as ocorrências começaram. Delair só conseguiu pôr fim à violência sexual quando já tinha 14 anos, não sem antes sofrer todo tipo de manipulação mental, surras e ser chantageada com ameças de morte para pessoas queridas. 

No início, recorda que não tinha consciência do abuso. "Meu pai falava que todos os pais faziam aquilo com as filhas, para elas se tornarem adultas. Dizia que era um segredo", lembra. Conforme foi crescendo, passou a não aceitar facilmente as violações. Nesta época, o pai adotou as ameaças para forçá-la. "Ele dizia que mataria meu irmão no berço, à noite, e que a culpa seria minha", lamenta. Já adolescente, passou a escapulir dos ataques, e a violação sexual se transformou em agressões físicas. O pai a espancava por motivos fúteis, mas Delair sabia que o verdadeiro motivo das surras era o fato de não se deixar mais abusar. 

A ativista conta que ele molestava outras meninas do bairro, muitas vezes a troco de mercadorias que vendia na loja da família. "Por ingenuidade e falta de informação, as mães daquelas crianças não cuidavam direito", diz. Ela acredita, inclusive, que a própria mãe não tenha tido consciência dos abusos sofridos pela filha. "Ela sofria muito, eu escondia o abuso para evitar mais sofrimento", conta. 

Apesar da tragédia, Delair conseguiu tocar a vida. Casou-se, teve uma filha e, muito depois de os pais falecerem, resolveu contar esta história para alertar outras famílias sobre os perigos da pedofilia. "Dou palestras pelo Brasil e ao final muitas pessoas vêm me contar situações parecidas com as que eu vivi. Toda semana acabo sabendo de uma média de três novos casos", diz. As histórias, segundo ela, são horríveis, envolvendo abusadores e vítimas dos dois sexos. "As políticas públicas são cegas para este tema", critica. 

Por isso, defende que os casos sejam denunciados, mesmo por pessoas adultas que foram abusadas na infância. "Se o pedófilo estiver vivo, muito provavelmente continua a fazer vítimas", diz. 

A professora também afirma que todas as vítimas precisam procurar ajuda psicológica e até mesmo espiritual para superar o problema. Além disso, baseada na própria experiência, acredita ser importante perdoar, o que não significa concordar com a agressão. "É preciso encarar que passamos pelo abuso, perdoar e denunciar, pois a denúncia pode não só ocasionar a punição do acusado mas principalmente evitar que outras pessoas passem pela mesma violência", defende. 

Ela recorda que esperava arrependimento do pai por toda a maldade cometida, mas que isso nunca ocorreu. "Se eu tivesse um adulto para me proteger naquela época, com certeza teria contado. Por isso estou lutando para que a lei seja aprovada, para que haja campanhas na mídia. As famílias precisam quebrar o silêncio, dizer que a pedofilia existe para proteger suas crianças", diz. 


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