31/03/2015 às 09h29min - Atualizada em 31/03/2015 às 09h29min

Páscoa

Na Páscoa, celebramos a ressurreição de Cristo, ou seja, a sua vitória sobre a morte. Ao celebrá-la, nós nos identificamos com Ele. “Com ele sofremos, com ele morremos, com ele somos sepultados e com ele ressuscitamos (Rm 6, 1-11).

Momento forte desta celebração é a Vigília Pascal. Nela somos convidados a permanecer acordados. Isto é, a vencer o sono, símbolo da morte. Com este gesto queremos dizer que todos nós, como Cristo, haveremos de vencer a morte. Ela não tem mais poder sobre nós. Podemos até tripudiar sobre ela e escarnecer dela: “Morte onde está tua vitória? Morte onde está teu aguilhão? (1Co 15,55)

A liturgia cristã, porém, não é um simples teatro. Para ser verdadeira, deve corresponder à realidade vivida por nós. Num mundo em que a cultura da morte, da violência e do desrespeito à vida predomina, celebrar a Páscoa exige um compromisso real com a vida. Celebrar de verdade a Páscoa significa comprometer-se com a luta contra o aborto, contra a violência doméstica, contra a pornografia e todo tipo de abuso infato-juvenil. Significa engajar-se na luta por mais justiça, significa repudiar todo o tipo de corrupção, a começar pela corrupção eleitoral de compra e venda de votos. Significa respeitar a natureza e engajar-se na defesa de nossas fontes hídricas e dos recursos biológicos de nossa flora e fauna.

A Páscoa, antes de ser uma festa cristã, foi uma celebração do povo judeu, de caráter profundamente familiar. Na intimidade de uma ceia, o filho mais moço perguntava ao pai por que aquela noite era tão diferente das demais. A partir desta pergunta, fazia-se e, ainda hoje, se faz todo o memorial da libertação do povo hebreu da escravidão no Egito, não como algo passado, mas como anúncio, esperança e certeza da libertação definitiva que todos esperam. A celebração da Ceia Pascal, sem dúvida, tem sido para os judeus, um dos fatores mais importantes para conservar, através das vicissitudes históricas, sua identidade enquanto povo e enquanto religião.

Páscoa, para o judeu é memória da passagem da escravidão egípcia para a conquista da Terra Prometida. Para o cristão é celebração da ressurreição de Jesus, ou seja, da vitória da vida sobre a morte. Para o povo brasileiro, deverá ser passagem da terra da corrupção, da impunidade, da injustiça, da violência, da desigualdade e de tantos outros males geradores de morte, para uma “terra sem males”, de honestidade, de justiça, de partilha, de paz, de fraternidade, de igualdade e de vida.

A Páscoa cristã exige também, por sua natureza, uma celebração em família. Por isso, além da celebração que fazemos na igreja, seria muito interessante que nas famílias se introduzisse o costume da ceia pascal. Entre os cristãos do oriente esta é uma prática normal. Alguém fica em casa assando o cordeiro, enquanto os demais membros da família vão à igreja para, com toda a comunidade, participar da Vigília Pascal. À meia noite ouve-se um tiro de canhão, anunciando a ressurreição. Os fiéis então se saúdam apressadamente com a expressão: “Cristo ressuscitou”, ao que outro responde: “Na verdade ressuscitou”. Voltam em seguida para suas casas a fim de, em família, comer o cordeiro pascal.

Nossa compreensão e nossa vivência do mistério pascal, certamente, seria melhor assumida, se em nossas casas, ao menos uma vez por ano, de forma solene e ritualizada se narrasse a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo; se a oração em família fizesse perceber que foi do coração de Cristo transpassado pela lança que nasceu a Igreja. Com certeza teríamos outra percepção de nós mesmos, enquanto filhos e filhas de Deus, se ao menos uma vez por ano, no contexto da ceia pascal, nos fosse contado de novo, que pelo nosso batismo fomos sepultados com Cristo em sua morte e com ele de novo fomos chamados à vida nova (cf. Rm 6, 3-11).


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