29/08/2012 às 12h34min - Atualizada em 29/08/2012 às 12h34min

E lá se vão 76 anos da Estação Pirianito, um nome misterioso

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E lá se vão 76 anos da Estação Pirianito, um nome misterioso

Em 1943 denominação do local passou a ser Uraí, motivo de controvérsia e cuja melhor tradução é ''o rio dos pássaros''
Fotos/Olga Leiria

Fotos/Olga Leiria

Jorge Takano começou a fotografar em 1942 e pretende publicar um livro sobre a cidade. ‘‘É a história desde o fim de 1936 até hoje’’
Panorama atual da ferrovia em Uraí. Os trens de passageiros cessaram e a estação não é a de 1936. A primitiva era de madeira
O pai de Jorge Takano conheceu a região ainda em 1936 e se fixou em 1937
Partindo de Ourinhos, a Estrada de Ferro São Paulo-Paraná transpõe o rio Paranapanema e ''semeia'' novas comunidades no rumo da antiga Jatahy, na barranca do Tibagi. No km 154, surge Perianito, ou Pirianito pela grafia na estação do trem, aberta em 1º de agosto de 1936, origem da cidade de Uraí exclusivamente com japoneses. Não dicionarizado, o vocábulo havia intrigado, dois meses antes, o jornalista Humberto Puiggari Coutinho, que tratou de desvendá-lo. 

''Que exprimirá este vocábulo? Perianito?... De Periandro, filho de Cypselo, assassino de Melissa, o conquistador de Corcyra e tirano de Corinto? Da leguminosa sul-americana, de cuja denominação se aproxima? - Nada disso. É unicamente a corruptela japonesa de periquito. Somente isso.'' 

No 'Paraná-Norte' de 31 de maio de 1936, Puiggari informa que a confusão se deve à péssima caligrafia, deformando letras da palavra periquito, de quem legou o histórico da gleba. A reportagem contraria duas versões que apareceram mais tarde: 1 - na máquina de escrever usada para preencher os contratos de compra e venda faltava a letra 'q'; 2 - os japoneses não conseguiam pronunciar periquito e soava perianito. 

Com a elevação a distrito, em 30 de dezembro de 1943, o nome é mudado para Uraí, também motivo de controvérsia quanto ao significado. 

Por uma versão, Uraí corresponde a ''Terra do Sol Poente'', contraponto a Assaí (''Terra do Sol Nascente''); por outra, difundida pelo IBGE, é o nome de uma erva que os guaranis usavam para produzir o curare e os pioneiros, ''querendo dar à colônia uma denominação genuinamente brasileira'', o adotaram. 

Ambas contestadas por Jorge Takano, 77 anos, fotógrafo da comunidade desde 1942 e que tem uma história de Uraí para publicar. Filho de japoneses e conhecedor do idioma, declara-se convicto de que não há nenhuma relação com ''sol poente''. Quanto ''ao pé de erva'', não existe da existência nos primórdios da gleba, ''querem colocar roda de carroça em automóvel'', segundo Takano. 

''O Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (edição da Encyclopaedia Britânnica do Brasil) registra ''uraí - planta brasileira de cuja casca se pode extrair curare''; e ''uraiense, adjetivo relativo a Uraí, cidade e município do Paraná; substantivo (m. e f.), pessoa natural desse município''. 

Com sentido geográfico existe tradução no ''Vocabulário Tupi-Guarani-Português'', de Silveira Bueno (Éfeta Editora, 6 edição - 1998): ''Uray — s.m. O rio dos pássaros, de uirá + y''. Há topônimos, porém, com duas ou mais interpretações e ''uray pode ser também o rio dos bernes, das varejeiras, de ura-y''. 

Surge uma cidade onde não convinha perguntar 

''Alguém, cujo nome se perdeu nas brumas do tempo, deu a um vasto terreno de 18 mil hectares à margem, hoje, da Estrada de Ferro São Paulo-Paraná, o nome de Periquito'', relata Puiggari no segundo parágrafo, para esmiuçar adiante a confusão manuscrita. 

''A caligrafia, porém, de quem o escreveu pela primeira vez, para que um japonês o lesse, era péssima. O filho do sol nascente, em sua meia língua, lutando para articular o nome que se lhe apresentava tão arrevesado, aproveitou-se da ausência do rabisco inferior do que transformou este em a. Mais um defeito no u que, ao parecer, estava de pernas para baixo, transformou-se de vogal na consoante n. Daí, por essas transformações, surgiu Perianito, de mais fácil pronúncia e de maior elegância, justamente por ser de origem desconhecida.'' 

Firmara-se o topônimo, que melindrava os curiosos, segundo o repórter: ''Ninguém indagava a razão e tampouco o significado, com medo de ser tachado de ignorante''. Sucedeu que ''da tradição oral passou à escrita e desta para os instrumentos públicos dos tabelionatos, até que a Companhia Nambei Tochi adquiriu o terreno, figurando na respectiva escritura de transmissão o citado nome de Perianito''. 

No km 154 da Estrada de Ferro São Paulo-Paraná, entre Frei Timóteo e Congonhas, estava projetada a Estação Perianito, que daria origem a uma cidade, antecipou Puiggari. ''Aí, a referida Companhia Nambei Tochi vai formar uma fazenda de 100 mil cafeeiros, reservando o restante da gleba para ser loteada e vendida a particulares. A área que circunda a estação se transformará no patrimônio da futura cidade de Perianito.'' 

Outra ''certidão de nascimento'' é o comunicado da Companhia Ferroviária São Paulo-Paraná no semanário ''A Voz do Povo'' (11.6.1936), editado em Ourinhos: ''Faço público que nos dias 15 do corrente mês e 1º de agosto próximo, respectivamente serão abertas ao tráfego em geral, nesta Estrada, as estações de ''IBIPORÃ'' e ''PIRIANITO''. Assinado pelo chefe de tráfego, Hermínio Socci. 

Mas o projeto cafeeiro inicial não foi adiante, por causa do falecimento de Reizo Yamashina, titular da Nambei Tochi. A subsidiária optou pela divisão da área em pequenos lotes, vendidos aos imigrantes chamados para serem apenas colonos. 

Takano tem a história escrita e todas as imagens desde 36 

De alvenaria e preservada, abrigando o Conselho Tutelar, a estação ferroviária hoje não é a de 1936. ''A primeira era de madeira'', informa Jorge Takano, que possui entre 10 mil e 15 mil fotografias da comunidade uraiense, das quais duas mil selecionadas, em condições de serem expostas. 

Ele conta que o pai, Kiyoshi Takano, conheceu o lugar ainda em 1936 e se fixou em 1937, logo participando da construção da infraestrutura urbana em mutirões e a seguir fotografando. 

O acervo abrange aspectos gerais e cresceu muito pelo registro da vida social, segundo Jorge, que sonha com uma mostra prolongada. Observa que normalmente uma exposição de poucas fotografias só pode permanecer longo tempo onde haja muita gente, por exemplo Londrina, com 500 mil habitantes. Mas Uraí, com menos de 12 mil, pode renovar o interesse do público substituindo periodicamente as fotografias, tal a quantidade, e assim prolongar a exposição. 

Entretanto, afirma que não consegue apoio do município e entidades culturais para fazer a exposição e publicar o que escreveu sobre o município, permanecendo os originais na gaveta. ''É a história desde o fim de 1936 até hoje'', resume. 

''Comecei a trabalhar com meu pai quando tinha 11 anos, em 1942'', recorda o início da profissão de fotógrafo, em que se mantém aos 77. As máquinas expostas na vitrine de seu estabelecimento, no centro da cidade, não estão à venda, fazem parte de uma coleção de aproximadamente duas centenas, mas ele diz que ainda falta uma ''Rio-400''. 

Depois da gleba, a máquina Periquito 

Tempos depois da confusão envolvendo a gleba Periquito, se tornou famosa em Uraí a Máquina Periquito de amaciar rami, que amputava dedos, mãos e até antebraços. Por volta 1980, Uraí era a ''capital do rami'', pela maior área com a cultura no Estado, por extensão o município detentor do maior número de vítimas da máquina, estimadas em três mil na região. Por diversos motivos, entre os quais o trabalho de boias-frias sem vínculo empregatício, nenhuma seguradora assumia a cobertura e os próprios ramicultores se cotizavam para indenizar os acidentados. Enquanto trabalhadores atribuíam as mutilações à ''agressividade da máquina'', patrões associavam bebida e mulher, incompatíveis com aquele serviço. ''A bebida tira os reflexos e a mulher faz o homem ficar exibido e descuidado consigo mesmo, podendo vir o acidente'', afirmavam.

 

 

Link Fonte: http://www.folhaweb.com.br/?id_folha=2-1--3848-20120829


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