23/03/2012 às 02h47min - Atualizada em 23/03/2012 às 02h47min

Tsunami no Japão criou cenário de destruição “além da imaginação”

Tragédia que matou 16 mil pessoas completa um ano neste domingo (11)

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Há exatamente um ano, um terremoto de 9 graus de magnitude atingiu o oceano Pacífico, a 130 km do território japonês. Cerca de 20 minutos depois, ondas gigantes de até 15 m de altura invadiram a costa leste do país. Ao longo de 500 km de litoral, o tsunami de 11 de março de 2011 deixou um rastro de morte e destruição que espantou o mundo.

Navios no meio de cidades. Barcos em cima de casas. Vagões de trem em cemitérios. Cidades varridas do mapa. Vidas inteiras borradas. Idosos pedindo pra morrer. Imagens da vida real. 


Yasuyoshi Chiba correu a vida toda atrás de um retrato como esse, em que a realidade parece um quadro inventado. Ele só não esperava que a sua terra seria o palco de um cenário além da imaginação. 

Naquele dia 11, o fotógrafo de 40 anos acompanhava uma missão da ONG Médicos Sem Fronteiras na selva do Congo, na África. Isolado e quase sem acesso à internet, ele ouviu de um enfermeiro a primeira notícia do terremoto. 

Nascido perto de Tóquio e criado no sul do Japão, Chiba imaginou que fosse apenas mais um dos tantos terremotos que abalam o país constantemente. 

Horas depois, no entanto, ele ficou chocado com a segunda notícia do enfermeiro. 

- Uma cidade desapareceu. 

Não era tarde 


Quando deixou o Congo, uma semana após o terremoto, e voltou para o Quênia, onde morava na época, Chiba sequer pensava em viajar para o Japão – a agência de notícias para a qual trabalha, a France Presse, já tinha enviado outros fotógrafos. 

Mas enquanto acompanhava a notícias do tsunami, Chiba sentia falta de um personagem importante do desastre: o povo japonês. 

- Eu via ótimas fotos, mas não podia entender como as pessoas estavam vivendo. “O que elas estão fazendo?”, eu pensava. 

Foi essa pergunta que levou o fotógrafo a viajar para o Japão duas semanas após a passagem das ondas gigantes. 

- Em um desastre, se um fotógrafo perde tempo, ele tem menos chances de conseguir boas fotos. No caso do tsunami, parecia tarde, mas não era tão tarde, porque muitos lugares ainda estavam intocáveis. 

E foi pensando no que as pessoas estavam fazendo que Chiba desembarcou no Japão. Ele alugou um carro e partiu rumo aos 500 km de costa devastada – na maior parte do tempo só. 

Mas ao invés de encontrar uma população desesperada, Chiba descobriu um povo calmo e calado, que caminhava sobre montanhas de entulho em busca de corpos, lembranças e pedaços de vida. 

As feições de calma, no entanto, escondiam a tristeza das pessoas. 

- Por que eu não morri? – perguntavam alguns idosos ao fotógrafo. 

- Isso me tocava, porque foram eles que construíram o nosso país. 

Seguir em frente 

Morando há oito meses no Brasil, Chiba mostra dezenas de fotos que tomou no desastre. A primeira que destaca é a imagem de um crematório, que foi recuperado imediatamente após a passagem do tsunami. 

- Muitos estrangeiros não entendem por que priorizar à reconstrução de um crematório. Mas é preciso dar um destino aos mortos antes de seguir em frente. Faz parte da cultura japonesa. 

Essa era a postura dos mais otimistas, sobretudo dos mais jovens , em contraste com a falta de esperança dos mais velhos, conta. 

Não foram apenas navios fora do lugar, carros em cima de casas e toneladas de entulhos que Chiba encontrou no rastro do tsunami. O fotógrafo passou um mês retratando essa massa silenciosa e calma, otimista e descrente ao mesmo tempo. 

- Todos os dias eu descobria algo novo. Não tirei todas as fotos que eu queria. 

Com um olhar paciente e uma voz pausada, Chiba não conta em nenhum momento que se emocionou com o desastre. Também não aponta qualquer foto como especial. 

- Muitas coisas que eu via estavam além da minha imaginação. E além da imaginação é um dos meus interesses na fotografia. Eu gosto de ir para lugares que eu não possa imaginar. É por isso que eu sou fotógrafo. 

Para o homem magro, de bigodes e cabelos ralos, foi um mês no rastro de uma monstruosa onda de busca e invenção. 

- A população não esperava por ajuda. Eles tentavam criar algo novo, tentavam se ajudar. Elas queriam melhorar... Essa é a força do povo japonês. 

Chiba passou um mês fotografando o encontro das pessoas com a porta de seus armários, com a fachada de suas casas, com a parede caída de seus quartos, com o diploma de suas filhas ou com o álbum de fotografias da mãe. 

Mais do que recuperar algo que se tinha: o resgate do que se é. 

O trabalho de Chiba no Japão venceu o principal prêmio do fotojornalismo mundial, o World Press Photo Award, na categoria “People in the News” (Pessoas nas Notícias, em tradução livre). O tsunami de março de 2011 causou 16 mil mortes. Mais de 3.200 pessoas ainda estão desaparecidas.


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