16/01/2012 às 07h43min - Atualizada em 16/01/2012 às 07h46min

Em seu primeiro ano fora do poder, Lula lutou para “desencarnar” do cargo e viveu drama do câncer

Tumor obrigou ex-presidente a interromper rotina de viagens e articulações políticas

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O primeiro ano do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fora do poder foram marcados por sua luta para “desencarnar” da função. Mesmo após passar o cargo à sucessora, Dilma Rousseff, ele continuou a dar pitacos sobre alguns dos principais temas do país: foi consultado sobre saídas de ministros, tentou emplacar a reforma política e palpitou sobre o andamento de programas e iniciativas do atual governo.

Em outubro, porém, a descoberta de um tumor na laringeinterrompeu sua agitada rotina, obrigou-o a sair de cena e lançou dúvidas sobre o papel que ele desempenhará em 2012, ano que será importante para o xadrez político por causa das disputas municipais.

Brasileiro sem cargo público mais influente da República, Lula repousou a faixa presidencial no peito de Dilma no dia 1º de janeiro já confessando a dificuldade que teria para voltar à vida comum depois de dois mandatos que o alçaram à condição de celebridade, tanto aqui como lá fora.

A primeira providência tomada foi tirar férias e fugir das câmeras para se acostumar com a vida nova. Aos poucos, e sem dar muita bola para a imprensa, Lula voltou a despachar no instituto que criou antes de chegar à Presidência, que fica em São Paulo.

Depois, passou a viajar o mundo para dar palestras (pelas quais embolsou cerca de R$ 3,5 milhões) e receber homenagens - foram sete títulos de doutor honoris causa.

Entre uma viagem e outra, Lula fazia o de sempre: política. Tentou liderar uma frente de partidos e parlamentares em prol da reforma política, mas a articulação não foi suficiente para convencer o Congresso a avançar no assunto.

Em São Paulo, dobrou a resistência de alguns grupos do PT e lançou o ministro da Educação, Fernando Haddad, na disputa pela prefeitura da capital paulista, apesar do favoritismo de Marta Suplicy, bem colocada nas pesquisas.

Em maio, viajou às pressas a Brasília para tentar apagar o incêndio causado por denúncias contra Antonio Palocci, o então ministro-chefe da Casa Civil. Palocci, que também foi homem forte de Lula, afastou-se do cargo sob a suspeita de, irregularmente, aumentar seu patrimônio em 20 vezes entre 2006 e 2010.

Para a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, professora da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos), a atitude de Lula no caso Palocci pegou mal. Em sua avaliação, o episódio criou uma faísca na relação entre a presidente e o antecessor.

- Essa ida de Lula a Brasília gerou a impressão de que a presidente não conseguiria gerir a turbulência, mas Lula foi convocado porque Palocci não era qualquer ministro, ele foi um coordenador da campanha vitoriosa de Dilma.

Na opinião da cientista política Roseli Aparecida Martins, da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), naquele momento, deu-se início a um distanciamento paulatino de Lula em relação às decisões de Brasília.

Roseli lembra que a queda de Palocci precedeu a famosa “faxina” empreendida por Dilma em seu gabinete. A limpeza teve início com a saída de Alfredo Nascimento do Ministério dos Transportes, em julho. Ao todo, deixaram o governo seis ministros envolvidos em denúncias, além de funcionários do primeiro escalão dos próprios ministérios e de estatais e outras instituições ligadas a eles.

- Diante das suspeitas, ela não se empenhou em continuar com eles.

Para Maria do Socorro, foi “depois das denúncias e da queda dos ministros que começou a construção de uma nova imagem da presidente, descolada de Lula”.

O cientista político José Paulo Martins Júnior, da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), concorda. Para ele, “a queda dos ministros ajuda Dilma a tomar as rédeas de seu próprio governo”.

- Ela recebeu uma herança do Lula, mas agora ela abre caminho para ter um governo com a cara dela.

Saúde

No fim de outubro, apenas dois dias depois de completar 66 anos, um fato novo alterou radicalmente a rotina de Lula em seu primeiro ano fora do poder. A descoberta de um tumor na laringe surpreendeu o país e obrigou o ex-presidente a se recolher em seu apartamento, que fica em São Bernardo do Campo (SP). O tratamento, iniciado de maneira imediata, fez com que Lula colocasse a política de lado para cuidar da saúde.

Martins Júnior ressalta que, com Lula saindo de cena, Dilma ganhou espaço na condução de seu governo. O analista afirma que a doença também acabou reforçando o lado humano do ex-presidente.

- Essa doença acabou afastando ele do poder mais do que ele gostaria. Ele saiu do centro do poder, mas permaneceu no noticiário. Aí entrou a figura humana passando por dificuldades.

Para Maria do Socorro, a batalha contra o câncer fez com que a popularidade de Lula crescesse ainda mais. Prova disso é a pesquisa Datafolha divulgada no início do mês, que mostrou que 48% dos entrevistados votariam em um candidato indicado pelo ex-presidente na eleição municipal do ano que vem em São Paulo.

- O eleitor brasileiro é muito emotivo. O câncer gera mais popularidade e a manutenção desse apoio popular.

Desde outubro, Lula já fez três ciclos de quimioterapia. No começo do ano, deve passar por sessões de radioterapia. Os primeiros exames indicaram uma redução de 75% do tumor. A previsão é que tudo seja concluído em fevereiro.

Na opinião de Roseli Aparecida, com o fim do tratamento, o petista deve voltar forte para o mundo político em 2012, ainda a tempo de liderar o partido nas eleições.

- Ele tem projetos políticos para cumprir, como levar o PT novamente a comandar o município de São Paulo.

O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que esteve com Lula no hospital em dezembro, foi quem adiantou qual deverá ser o papel do ex-presidente nas campanhas municipais do ano que vem.

- Lula nunca precisou de cargo para fazer política.


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