25/05/2010 às 10h50min - Atualizada em 25/05/2010 às 11h03min

Argentina completa 200 anos sem saber para onde ir

Rico no passado, país perdeu o rumo após sucessivos conflitos, mas tem fé em Maradona

Foto por Juan Mabromata - 24.mai.2010/AFP
A Argentina é um país relativamente jovem, completa 200 anos de independência nesta terça-feira (25). Mesmo assim, os argentinos são um povo atormentado pelo passado. A nação, uma das mais ricas do mundo no início do século 20, viu o sonho de construir uma Europa na América Latina se desintegrar com a sucessão de golpes e ditaduras que marcaram sua história nos últimos 70 anos. No seu bicentenário de independência, a Argentina tem muito a lembrar, algo a comemorar e bastante a repensar.
Para Sérgio Gil Marques, professor Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco, "a Argentina lamentavelmente se perdeu em um momento".

- A Argentina tinha um padrão europeu no início do século 20. Mas a instabilidade política, sobretudo a partir do peronismo, os sucessivos golpes e ditaduras provocaram a falta de um planejamento econômico de longo prazo.

Após a unificação do país, em 1853 (veja infográfico sobre a história argentina), os argentinos viveram um período de grande riqueza no fim do século 19 e início do 20. Em 1886, o governo estabeleceu um sistema de educação universal e em 1913 Buenos Aires inaugurou a primeira linha de metrô da América Latina.

A capital argentina ganhou arquitetura francesa e se tornou cosmopolita. O país criou o tango e produziu gênios da literatura, como Jorge Luis Borges. Cinco argentinos ganharam prêmios Nobel, dois da paz, dois da medicina e um de química.

Peronismo é fantasma insepulto

Para o professor Marques, a ascensão do general Juan Domingo Perón à Presidência, em 1945, marca o início da decadência argentina. O militar assumiu o poder implantando um regime de molde fascista (justamente quando o estilo era derrotado na Europa), autoritário e fortemente ideológico.

- O peronismo é expressão do forte autoritarismo que marca a história e cultura argentina. O apogeu, a exacerbação, se dá no peronismo. Há uma mitologia política. O Perón ocupou um espaço parecido ao do Getúlio no Brasil. Mas o Getúlio morreu e sua lembrança foi se esvaindo. Perón foi derrubado, foi ao exílio, voltou e só depois morreu. Mas ele continua vivo, assim como o mito de Evita, a mãe dos pobres.

Perón dizia ser contra o socialismo e o capitalismo. Sua ideologia, o justicialismo, ganhou força sobretudo entre as classes populares, que ganharam direitos trabalhistas. Evita Perón, uma ex-atriz, era adorada pelo povo. Sua morte, em 1952, fez dela um mito. Nos anos seguintes, seu livro de memórias se tornou leitura obrigatória nos colégios.

- No Brasil, mesmo os maiores déspotas viram bons depois da morte. A história do Brasil não é revisionista na visão do povo. Na Argentina a morte continua a ser uma reprodução da vida. Perón morreu mas seu fantasma continua lá. A Evita morreu e roubaram o seu corpo [escondido na Itália], que depois foi trazido ao país.

Ditadura violentou a Argentina

A história argentina é repleta de golpes, reviravoltas e muita violência. Após a queda de Perón, em um golpe em 1955 (a Casa Rosa foi bombardeada), militares fiéis ao governo foram fuzilados. Em 1958, o país elegeu Arturo Frondizi, que tinha um plano de desenvolvimento ao estilo do presidente brasileiro Juscelino Kubitschek (1956-1961). Em 1962, o presidente foi deposto por outro golpe militar.

Em 1973, Perón voltou do exílio (13 pessoas morreram em conflitos no aeroporto) e foi novamente eleito presidente. Ele morreu no ano seguinte e deixou no cargo Isabelita Perón, sua vice e mulher. Em 1976, os militares derrubaram a presidente.

- O projeto dos militares era desmantelar todo o aparato oposicionista. Por isso foi muito violenta.

Cerca de 30 mil pessoas desapareceram ou foram mortas pelos militares em apenas sete anos, violência muito mais intensa do que a ocorrida no Brasil, cuja população é maior e onde a ditadura durou 20 anos. Os filhos de muitos ativistas mortos foram adotados pelos militares.

O atual governo, do casal Kirchner, retomou os julgamentos. Muitos foram à cadeia no governo Raul Alfonsín (anos 1980), mas acabaram soltos no governo Carlos Menem (anos 1990). No início deste ano, o último ditador, Reynaldo Bignone, foi condenado a 25 anos de prisão.

Argentina tricampeã?

Enquanto não acertam as contas com o passado, os argentinos não parecem conseguir olhar para o futuro. Não há lideranças novas na política. Perón continua a dividir o país e os próprios peronistas (há alas de direita e de esquerda e mais de um candidato peronista nas eleições). Os repressores militares ainda assombram o povo. Em 2001, a forte crise que levou o país à falência e ao caos parece ter colocado a última pá de cal na Argentina rica que já foi importante no passado.

Mesmo assim, os argentinos levaram o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010, por O Segredo de Seus Olhos. E a seleção azul celeste é uma das favoritas na Copa da África do Sul deste ano. Sob a batuta de Maradona.

Fonte: R7

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